Mostrando postagens com marcador transgressão. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador transgressão. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de março de 2015

Do invertido ao michê bicha: aspectos de um corpo rebaixado.


A figura do invertido encontrada na antiguidade, que desde há muito tempo – parafraseio Foucault –“desperta uma repugnância ao seu respeito, por marcar uma renúncia voluntária aos prestígios e as obrigações do papel viril.” Quais os critérios morais e éticos que determinam o limite desses corpos e sua sexualidade?
O corpo viril encontra-se rebaixado já desde antiguidade, como podemos verificar em escritos filosóficos encontrados entre os séculos IV e V a.c, esses escritos nos mostram o espectro desse rebaixamento, numa sociedade onde as relações de amizade eram respeitadas, segundo alguns critérios na prática da pederastia, é o caso de Xenofonte, Aristóteles e posteriormente Plutarco, para citar alguns exemplos de filósofos que relacionam as condutas sexuais como concernentes à moral e ética nesse momento. O que podemos tomar de imediato é que o corpo masculino responde ao arquétipo da virilidade, a ideia de homem (sexo masculino) corresponde a uma série de atributos que o qualificaria como um “ator ativo no cenário dos prazeres”, é um jogo entre sujeito e objeto em termos foucaultianos, sendo que, como homem o sujeito não deve se por como objeto, por uma simples razão; isso seria rebaixar a própria natureza, posto à similaridade com o papel de objeto conferido a mulher, não se deve assumir o prazer obtido em ser objeto”. Esse homem mesmo na tradição pederasta é nesse modo de ser, o sujeito de uma conduta vergonhosa, encontrada como “antinatural”, ou ainda, “repulsiva” e “bestial”.
Em O cuidado de si Foucault percebe que: “Toda uma reflexão moral sobre a atividade sexual e seus prazeres, que parece marcar, nos dois primeiros séculos de nossa era,[...] ­uma certa desqualificação doutrinal que parece recair sobre o amor pelos rapazes.” (FOUCAULT, p.231, 2005). A moral das condutas sexuais (aphrodisia) tomada pelos antigos gregos como uma possibilidade de elevar a alma dos homens, abolia de uma posição moralmente virtuosa o amor pelos rapazes, se a amizade em questão fosse participante dos aphrodisia, ou seja, para que fosse virtuosa, a amizade não se deveria relacionar à prática sexual, já que se a relação entre dois homens fosse consentida pelo “ator passivo” então era vergonhosa para este, em contrapartida, se somente a parte ativa tomasse prazer na relação, então a outra parte não se beneficiando do ato, não frutificaria daí nenhum bom sentimento, o “dilema do erônemo” se faz dessas duas situações. O sexo dispendioso da relação homoerótica é marcado por prescrições filosóficas e médicas, tanto pelos indicativos de corrupção da alma, quanto pela corrupção corpo. É possível perceber um movimento que vai reafirmando as práticas homoerótica como a contrapartida da austeridade viril, trata-se de uma relação moral entre virtude e vergonha, uma relação que permeia também a figura masculina na sociedade moderna.
Foucault mostra em O cuidado de si, através de algumas prescrições da filosofia antiga, princípios gerais que organizavam na época clássica a experiência moral dos aphrodisia, encontramos vinculados às práticas sexuais uma certa reserva, uma certa precaução. O sexo foi tomado por filósofos e médicos da era clássica “como perigoso, difícil de ser dominado e custoso; a medida exata de sua prática possível e sua inserção num regime atento, foram exigidas desde há muito tempo.” (FOUCAULT, p.233,2005). Essas considerações estão diretamente ligadas à dietética do corpo e do uso dos prazeres prescritos, para que se pudesse manter, ou acender por meio dessas práticas de si à austeridade através das relações de amizade, uma certa hipocrisia que prevê manter a integridade da alma a salvo dos vícios da carne, não deixando que a amizade e todas as virtudes que dessa relação possam brotar, sucumbam ao desejo referente aos aphrodisia. O ato sexual é desse aspecto negado ou ao menos disfarçado nas relações de amizade, e a relação entre homem e mulher passa de maneira progressiva à formar-se como a única legitima e austera. Foucault não deixa de nos lembrar que com a formação do antigo cristianismo e seus mecanismos que nos fizeram detestar o corpo, o sexo (e a sexualidade) em seu modelo “legítimo” toma maiores proporções, ele nos mostra também que a partir do século XIX, houve uma mudança determinante para a história da sexualidade: a construção dos dispositivos da sexualidade e uma teoria geral do sexo.
Foucault em A vontade de saber dizia a respeito de um processo ocorrido na moral sexual no século XIX, que se estende à sexualidade moderna “um rápido crepúsculo que, se teria seguido à luz meridiana, até as noites monótonas da burguesia vitoriana”. Isso quando a sexualidade é confiscada pela conjugalidade dos sujeitos, ganha então, um sério aspecto de legitimidade, pela prática matrimonial puramente reprodutiva, foi nesse momento que ocorreu intensificação da naturalização do sexo, família conjugal o confisca.“O que não é regulado para a geração, ou por ela transfigurado não possui nem eira nem beira, nem lei. Nem verbo também. É ao mesmo tempo expulso, negado e reduzido ao silêncio. Não somente não existe, como não deve existir e à menor manifestação fá-lo-ão desaparecer.” (FOUCAULT, p.8, 1998).

Por que o nosso comportamento sexual está para nós como objeto de preocupação moral, de um certo cuidado ético tão intenso? É essa reflexão que conduz Foucalt em O uso dos prazeres, uma questão que está para além de uma interdição geral da sexualidade, “ocorrendo frequentemente que a preocupação moral seja forte, lá onde precisamente não há obrigação, nem proibição.(FOUCAULT, p.14, 1998). Esse movimento parte do sujeito, do sujeito desejante, que relaciona essa problematização das condutas sexuais a um conjunto de práticas referidas por Foucault como artes da existência”, ou ainda, “técnicas de si”: “Deve-se entender, com isso, práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens [...] procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos critérios de estilo.” (FOUCAULT, p.15, 1998).
Foucault parte do princípio de que uma hipótese repressiva das interdições, não seria por acaso, o único fator de problematização moral do comportamento sexual, levanta para tanto, uma genealogia do desejo, ou, se preferir, do sujeito desejante: é a proposta de uma hermenêutica do desejo, que “busca analisar as práticas pelas quais os indivíduos foram levados a prestar atenção a eles próprios,[...] estabelecendo de si para si uma relação que permite descobrir no desejo a verdade de seu ser, seja ela natural ou decaída.” ( FOUCAULT, p.11, 1998).
Foucault dá a chance de colocar a sexualidade no campo de uma experiência do sujeito capaz de inventar-se a si mesmo: “se entendermos por experiência, a correlação numa cultura entre campos de saber, tipos de normatividade e formas de subjetividade.”(FOUCAULT, p.11, 1998). Em O cuidado de si Foucault dá ao sujeito a necessidade de se conduzir segundo sua própria sexualidade: “A Moral sexual exige, ainda e sempre, que o individuo se sujeite a uma certa arte de viver que defina os critérios estéticos e éticos da existência.” (FOUCAULT, p. 72, 1998).
Em A hermenêutica do sujeito curso ministrado em Collège de France entre 1981e 1982, tem como pontos principais a problematização moral das práticas e prazeres sexuais na antiguidade os aphrodísia, e como contraponto põe a moral judaico-cristã, que é a base da moral sexual da sociedade ocidental moderna. Foucault se muni de um termo bastante rico das sociedades antigas Epiméleia heautou, traduzida pelos latinos como cuidado de si mesmo.ocupar-se com si, preocupar-se com si etc.” Ele ocupa-se a partir daí de traçar a relação entre a prescrição délfica gnôthi seautón (o “conhece-te a ti mesmo”), e o cuidado de si. As referidas “técnicas de si”, que na antiguidade guiam ao encontro da virtude perdem força e autonomia, quando ao serem integradas ao cristianismo e depois ao longo do tempo, quando submetidas às instituições educativas, médicas e psicológicas, que transferem o cuidado que se deve ter consigo mesmo, por um cuidado que se deve ter com o próprio corpo, talvez obedecendo ao mesmo uso que se faz hoje da palavra estética.
Da amizade pode-se dizer que ela foi sofrendo alterações, já em alguns filósofos antigos vemos as prescrições das condutas sexuais dirigidas às relações heterossexuais na conjugalidade, a partir do cristianismo essa posição toma mais força, podemos ver hoje o impacto normatização das relações sexuais. A amizade foi sendo restringida aos poucos das condutas socialmente aceitas, até enfim, ser banida totalmente dos modos possíveis de se conduzir a vida. Sobre esse aspecto podemos evocar ainda um outro Foucault, aquele que desloca o tema da amizade da antiguidade para um tempo mais próximo ao nosso, em entrevista publicada no ano de 1981, Foucault fala ao jornal Gai Pied, já no inicio da entrevista, sobre “o movimento homossexual ter mais necessidade hoje de uma arte de viver, do que de uma ciência ou um conhecimento científico (ou pseudocientífico) do que é a sexualidade.” (FOUCAULT, p.260, 2004). Foucault segue, e dá a sexualidade um status privilegiado, a partir do conceito de desejo, a possibilidade de uma vida criativa, um fazer-se, um construir-se, de modo a produzir uma obra:
A sexualidade faz parte de nossa conduta. Ela faz parte da liberdade em nosso usufruto deste mundo. A liberdade é algo que nós mesmos criamos — ela é nossa própria criação, ou melhor, ela não é a descoberta de um aspecto secreto de nosso desejo. Nós devemos compreender que, com nossos desejos, por meio deles, instauram-se novas formas de relações, novas formas de amor e novas formas de criação. O sexo não é uma fatalidade; ele é uma possibilidade de aceder a uma vida criativa .” (FOUCAULT, p.260, 2004).


Nesse sentido é possível afirmar, ainda nessa fala de Foucault, que a liberação sexual é ponto de formação da obra de arte, da criação de novos modos de vida, é nesse ponto e do espaço de um estilo de vida homossexual, que essa liberação vem a ser potência criativa:


Forçosamente constatamos que a sexualidade tal qual a conhecemos hoje, torna-se uma das fontes mais produtivas de nossa sociedade e de nosso ser. Eu penso que deveríamos compreender a sexualidade num outro sentido: o mundo considera que a sexualidade constitui o segredo da vida cultural criadora; ela é mais um processo que se inscreve na necessidade, para nós hoje, de criar uma nova vida cultural, sob a condução de nossas escolhas sexuais” (FOUCAULT, p. 261, 2004).


Devemos nos lembrar sobre a liberação sexual decorrente dos anos 60, que desde a descoberta do vírus HIV nos anos 80 houve um retrocesso das conquistas geradas nesse período de revolução sexual, a epidemia que logo foi associada ao estilo de vida gay gerou retrocessos morais no imaginário coletivo: “A epidemia mudou não apenas o cenário da época, mas também impulsionou mudanças culturais que sepultaram as – hoje sabemos – frágeis conquistas da então chamada Revolução Sexual.” (MISKOLCI, p.47, 2011). Muito similar ao processo ocorrido no século XIX com o progressivo crescimento de casos de sífilis, homossexuais assim como prostitutas passam a “concentrar em si” todas as ameaças que pesam sobre o corpo, a degenerescência e a regressão, essa aproximação entre doenças sexualmente transmissíveis e personagens marginais da sociedade, tanto no século XIX como no século XX altera o olhar sobre os corpos e marca a história dos corpos desejados, aproximando o prazer à morte e reafirmando o rebaixamento de corpos que já se encontravam marginais.

Com a AIDS houve um retrocesso do processo de despatologização das identidades sexuais, um impulso na marginalização dessas identidades decaídas, onde existe todo um problema em torno das sexualidades que possam (a partir de uma “imoralidade”) representar riscos à saúde pública.Os homossexuais arcaram com o estigma da AIDS, prostitutas e os michês receberam atenção dos órgãos públicos, os homossexuais e ai se incluem os michês, (a partir de uma conduta homossexual) foram transcritos como sinônimos de devassidão, peste e promiscuidade venérea.

[…] No Brasil, algo diverso ocorreu. Em meio ao processo de redemocratização do país, o então movimento homossexual brasileiro (MHB) conseguiu estabelecer um diálogo com o Estado na criação daquele que talvez seja o melhor programa assistencial de aids do mundo, resultando em uma situação invejável por outros contextos nacionais, mas também marcada por cooptação.” (MISKOLCI, p.49, 2011).


A AIDS reconfigurou as relações de respeitabilidade sexual e por tanto, dos corpos desejados, e funcionou como radicalizador da imagem do aidético, a amizade foi novamente banida das relações aceitas, a imagem do homossexual ganha novo aspecto aberrante e por fim, o sexo que já começava a se liberar, rompendo com o estigma do matrimônio volta a ser encarcerado. A liberação sexual deixa de ser gradual e passa a ser reprimida, é por que “reside na liberação sexual um risco à saúde pública”:

Neste novo contexto, o dispositivo histórico da sexualidade passou por uma inflexão que reforçou a imposição da heteronormatividade, um conjunto de instituições, estruturas de compreensão e orientação prática que se apoiam na heterossexualidade mantendo sua hegemonia por meio da subalternização de outras sexualidades, às quais impõe seu modelo.[...] A proposta foucaultiana de uma estética da existência ganha novos elementos e exige refletir sobre as promessas e os dilemas da relação entre subjetividade e ética na sociedade contemporânea.” (MISKOLCI, p.50, 2011).

Após as mudanças decorridas da AIDS e todos os seus retrocessos, já conseguimos conviver com a doença, a rotina sexual mudou para todos e gira em torno desse cuidado com o próprio corpo, após a desmitificação da doença, todos sabem que o HIV não decorre de um estilo de vida homossexual. Porém vale dizer: o corpo homossexual ainda é evidentemente associado à promiscuidade venérea e à baixeza que perturba a masculinidade, o rebaixamento da virilidade, tal como a figura da travesti e da transexual, que hoje se descolam do status homossexual, mas que tal como este, renunciam voluntariamente ao seu papel viril. Nos faz pensar ainda, qual o aspecto moral do corpo que abre mão de sua virilidade, dispondo-se como objeto de outro homem, e por vezes renunciando à estética viril?
A antiguidade tratou da virtude na amizade, mas condenou também o prazer sexual entre dois homens, àquele cuidado de si, aquelas referidas práticas do cuidado de si mesmo que conferiam à alma um local privilegiado, foram modificadas e passaram a dar ao corpo um lugar mais importante que destinado a alma, a medicina super valorizou o sexo, modificou à sua maneira as dietéticas, e teve grande contribuição nessa modificação do referido cuidado de si, “O face-a-face consigo se tornou um face-a-face com um corpo em relação ao qual não podemos tomar distância alguma.” (MICHAUD, p.554, 2009). O século XIX desenvolveu uma teoria geral do sexo e introjetou na história da sexualidade a vontade de saber sobre o “segredo essencial” do sexo, e por fim o corpo vem tomar esse lugar primeiro na constituição do sujeito e nos seus modos de vida. A virtude estóica pautada na saúde da alma abre espaço para o corpo na experiência sexual moderna, é através dele que devemos zelar por nossa vida, é ele nossa força de trabalho e também nossa grande verdade, nosso objeto de arte e de desejo. Focault defende que nossa resistência deve partir dos corpos e dos prazeres e não do sexo-desejo. Ao fim de A vontade de saber Foucault dizia que o sexo se tornou mais importante que a alma, ou até mesmo que a própria vida, Yves Michaud diz que é o corpo quem hoje ocupa esse espaço:“Estamos doravante diretamente diante do corpo e do sexo […] onde havia consciências, almas, fantasias, e desejo, só resta um corpo com suas marcas[...]: o corpo se tornou mais importante que nossa alma- tornou-se mais importante que nossa vida.” (MICHAUD, p. 564-565, 2009).



terça-feira, 2 de dezembro de 2014

A história do Olho ( ilustrações de André Masson)

Ao falarmos de transgressão, falamos do excesso, mas sem jamais esquecer que esse gesto é relativo ao limite, àquilo que transborda para além de seus próprios limites, não para extingui-lo, mas para afirmá-lo como existente, como em um carnaval, que por dias se excede no desbunde, para depois afirmar a partir de seu cessar que existe um retorno ao limite, esse retorno seria a quarta feira de cinzas, pós-terça-feira gorda, onde se celebra a entrada da Quaresma, período de penitências e arrependimento, as cinzas simbolizam a fugacidade da existência, tão bem expressa na Bíblia, no Gênesis 3,19: “Lembra-te que é pó, e ao pó hás de voltar”. Esse retorno constante, é a utilidade positiva da transgressão, que reafirma o limite que ela rompe, que reafirma existências, a transgressão se faz existir nesse movimento de retorno.
 Foucault responsabiliza a morte de Deus, a partir de Nietzsche, pelo imenso vazio, lugar resultante dessa morte, onde foi colocada a sexualidade a qual levamos ao limite a partir de nossa linguagem, a sexualidade aqui se apresenta como um limite, um limite de si mesma, uma fissura que delimita a nós mesmos como limite, e não obstante Foucault nos dá o tom da natureza da sexualidade, a sexualidade por excelência é sem Deus e hoje ocupa em nossa, e a partir de nossa linguagem o vazio deixado pela presença constante da ausência de Deus.  A morte de Deus, diz Foucault no seu Prefácio à transgressão (Pg. 32), não nos restituiu a um mundo limitado e positivo, mas a um mundo que se desencadeia na experiência do limite, se faz e se desfaz no excesso que transgride. A sexualidade se faz para Foucault, em um movimento que nada jamais limita, pois esse movimento da sexualidade é um retorno constante do limite, assim segue: “ Nesse movimento de pura violência, em que direção a transgressão se desencadeia senão para o que a desencadeia, em direção ao limite e àquilo que nele se acha encerrado?” ( prefácio a transgressão, Pg 33).
Georges Bataille serve aqui de exemplo, para ser posto como filosofo de excessos, de linguagem que transborda aquelas linhas que delimitam os a maneira de se fazer filosofia, a maneira de Bataille, uma poética que chocou e choca até mesmo quem se propõe a ocupar esse lugar, lugar onde se ecoam novas possibilidades nesse vazio, lugar que liga a sexualidade à morte. Georges Bataille encontra uma equivalência entre os traumas originários de sua infância e de sua puberdade, e as figuras fortemente marcadas pelo excesso descritas em seu livro  História do olho (1928), a incrível obsessão pela associação dos mais diversos objetos com o olho humano, a personagem Simone assim como o próprio Bataille enxergavam na profanação alusiva do olho humano um tipo de transgressão, especificamente no caso de Simone o olho humano direcionado, submetido às partes baixas era fonte de intenso prazer, o que no pós-fácio de História do olho fica bastante evidente a relação que Bataille traça entre, o prazer do pai do Filósofo ao revirar as orbitas inúteis no  momento em que se urinava em sua poltrona, e o prazer de Simone ao introduzir “órbitas oculares” em sua vagina, geralmente junto ao orgasmo se evidencia também o mijo recorrente dos espasmos de prazer da personagem. Direcionar o olhar para as genitálias é um violento deslocamento que incomoda e perturba o receptor de tal alusão. 


André Masson – Ilustração para História do olho de Georges Bataille (1929) 

André Masson ilustrou a novela de Bataille, e a meu ver sintetizou muito bem esse deslocamento do olhar descrito por Bataille, em uma imagem que perturba o observador. Nessa cena especificamente, o padre que foi violentado pelas três figuras devassas da trama, já caído sem vida no chão, tem o seu olho arrancado pelo Sir Edmond, que com a ajuda de uma tesoura entrega à Simone o olho arrancado do padre:
“... Simone Divertia-se, fazia o olho escorregar na racha das nádegas. Estendeu-se no chão, levantou as penas e o cu. Tentou imobilizar o globo contraindo as nádegas, mas ele pulou como um caroço entre os dedos”.
O olho na vulva escancarada, que ao mesmo tempo em que goza, se urina de prazer, chora em agonia e em deleite. Entender o que essa ilustração quer dizer a partir da narrativa é entender a violência da cena, o fetiche e a obsessão, a transposição do limite, o que antes era alusivo ( os ovos e os testículos) agora se concretiza,o que só  foi possível através da morte de uma das personagens o padre violentado que jaz sem vida no fundo da imagem. 

Para quem se interessar em ler a história do Olho de Georges Bataille, fica aqui o link para download.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

O que é que tem de mais?

Sexo e moral, são como água e olho, ingredientes usados no feijão com arroz. Para mim tudo que eu desempenho com intuito sexual é sexo, sendo assim nunca fiz do meu sexo uma equação do bem e do mal, pois, não vejo como uma necessidade avaliar, quantificar ou racionalizar minhas práticas sexuais enquanto são executadas, em verdade, acredito que ninguém pense em valores segundos antes de gozar.
Legislar o sexo, atribuindo valores à ele, fazendo uma lista de regras, leis e condutas a serem respeitadas é algo inconcebível à minha libido; isso pois, a libido não respeita nem mesmo o que eu determinei para mim como "correto", por vezes encontro a mim mesmo reprimindo-me, ao não atuar sobre o meu sexo com total entrega, eu deveria me guiar pelos instintos. É quando racionalizo essa auto-repressão que me pergunto de quê me vale tal esforço? Por qual motivo eu deveria medir meu desejo ( e meu ato) pelas especulações que precedem minha sexualidade? Por que sou gay, sem tendências ao romance, sem tendência à monogamia, sem tendência à família? A resposta talvez seja: Por qual motivo não ser? Por que não transgredir?


Joel-Peter Witkin "Le Baisier", 1982

Foi uma cruel batalha, abdicar da moral judaico-cristã, digo isso pois, essa moral repressora à minha condição, precede minha existência, o que implica em abrir mão do bem, logo, optar pelo mal (se é que existem mesmo esses polos na sexualidade). Durante minha infância fui guiado por palavras de valor moral, essas por sua vez só me fizeram criar pulsão transgressora, desejei a cada dia subverter meus pais, subverter aquelas regras chatas, a vida sexual monótona que eles me apresentavam, não suportava ser contido em minhas falas e meus gestos para ser um "homem correto". Sempre foi motivo de asco o incentivo familiar à objetificar as meninas afim de reafirmar minha masculinidade, reprimir, oprimir e objetificar mulheres, almejar constituir uma família e repassar os esses mórbidos "desvalores". Essas condutas que me foram delegadas afim de me tornar um bom homem teriam me tornado um alienado, sexista, machista, caso eu me inclinasse à elas, por isso talvez eu tenha me entregue à uma certa conduta transgressora à qual me engajo, e hoje tomo como meu princípio ético, não reprimir-me e responsabilizar-me por todo e qualquer ato que eu empreenda.
Transgredir à moral, pelo menos com relação ao sexo é por tanto combater as imposições da beatitude forjada que nos é culturalmente introjetada. Eu dou preferência à transparência de meus atos, não que eu seja exibicionista- não que eu não venha a ser- não  que eu faça com o intuito de expor, mas para mim o lançar-me como um espirito transgressor é um exercício de combate à repressão sexual. Não pretendo aqui fazer apologia à promiscuidade ( ou talvez eu queira), mas sim, por em pauta o questionamento do " o que é que tem de mais" .
O que é que tem de mais, me esfregar, me tocar, sentir o outro, lubrificar, deliciar-se, lambuzar-se, dar o cu? Fazer sexo fora do período fértil, chupar pinto, lamber xota, linguar cu, receber dedo, dar dedo, pedir dedo, pedir com dedo na boca, gemer, gritar, pedir mais? Ser mais sexual, o que é que tem de mais?

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Tire seus padrões da minha foda. (introdução)


Nós enquanto indivíduos sociais, vivemos em um constante processo de absorção de valores e julgamentos morais, não de maneira voluntária, e sim de maneira inconsciente. A máquina de poder que exerce influência constante e incessante sobre nossos corpos, sobre nossa vida, age nem sempre às claras, por vezes se disfarça de subversivo afim de nos tornar mais suscetíveis à tais influências.
Torna-se necessário refletir sobre a maneira como podemos nos conduzir, não afim de se tornar alguém virtuoso, mas sim ceder aos vícios que a moral judaico-cristã aponta como pecados capitais sedentos por confissão e redenção.
De qualquer modo para mim fica claro a maneira que o machismo se instala em nossa existência e veste a mascara de algo necessário à natureza humana, quando na verdade é um tipo de monstro construído afim de salientar ainda mais as relações de poder e opressão na sociedade. Alimentamos cotidianamente o machismo quando nos posicionamos como gays masculinizados, ativos impassíveis, passivos inativos, mulheres extremamente femininas e bem depiladas, homens peludos e parrudos. Todas as vezes que nos posicionarmos em nosso sexo  como um sujeito social (construído socialmente) e não um ser humano instintivo dado às sensações e ao desbunde estaremos reproduzindo opressões.

Oprimindo nós mesmos, nossos desejos, nossas potências, nossos prazeres. Fica entendido que a cada vez que levamos para nossa cópula todos os padrões sociais ( que reconhecemos como naturais), nos distanciamos da plenitude sexual da qual desfrutam os nossos cães por exemplo, pois que transam com o pai, a mãe e os filhotes, sem o menor remorso ou preocupação que envolva status ou virtude dentro e fora do ato, mas sim saciar a vontade incontrolável de gozar sua sexualidade em plenitude, apenas vivenciando experiências.
O que eu estou querendo dizer afinal? Quero dizer que nós temos o dever de travar uma batalha contra as forças que vem contrárias à natureza da nossa sexualidade, não bastando-nos a aceitar e reproduzir padrões que nos distanciam dos caminhos do prazer.